segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Elvis e o Blues

"O blues não é nada além de um bom homem se sentindo mal"

Essa história de que o rock'n'roll é um novo ritmo criado na década de 50 com a mistura do country (brancos) e do blues (negros) é "papo furado". O rock'n'roll já existia há muitos anos atrás entre os negros do sul dos Estados Unidos com o nome de rhythm & blues e quando os rockers brancos começaram a regrava-los, a mídia tratou logo de dar uma "branqueada" na música e rebatiza-la de rock'n'roll, para que a sociedade branca hipócrita da época pudesse engoli-lo como "música branca" sem se engasgar tanto.

Muitos rockers brancos (inclusive Elvis Presley) foram acusados de terem se enriquecidos com as regravações destes rhythm & blues enquanto os seus verdadeiros autores caíram na miséria e no esquecimento. Eles davam uma suavizada nas letras e regravavam como rock'n'roll e para muitos estas regravações soavam como nova e original, pois nem faziam idéia que esta "nova" música já era febre entre os negros desde as décadas de 30 e 40.

O que muitos não sabem é que alguns rockers como Elvis Presley e Jerry Lee Lewis foram criados na pobreza; e na miséria as barreiras da segregação são derrubadas e a cultura das duas raça se fundem. Isto quer dizer que Elvis e Jerry Lee sentiram na pele toda a discriminação, segregação e privações que eram comuns – tanto para negros quanto para brancos – aos que nasciam na miséria, e estes são elementos essenciais para uma alma bluseira!

Outro "papo furado" é a história que se conta sobre a primeira gravação comercial de Elvis. Diz a lenda que do lado "A" do compacto, Elvis gravou "That's All Right Mama" (um blues de seu ídolo Artur Crudup) como se fosse um country e do lado "B", gravou "Blue moon of Kentucky" (country de Bill Monroe) como se fosse um blues... isso é "conversa mole"! Na realidade (é só ouvir as gravações e conferir), Elvis cantou as duas música da maneira que ele as sentiam, ou seja, BLUES! A mídia deu uma "maquiagem" nesta gravação porque estava "soando negro demais" e então inventaram esta desculpa esfarrapada para acalmar os ânimos mais exaltados (pois cantar um clássico do country – "Blue moon of Kentucky" – como se fosse um blues era considerado blasfêmia!!) e poder tocar o disco nas rádios locais.

Toda a influência musical de Elvis foi baseada no gospel e no blues, isto é, na música negra. Certa vez, o mestre do blues Howlin' Wolf declarou: "Esse garoto começou do blues" e o grande compositor e cantor Joe Cocker escreveu: "Elvis é o maior cantor de blues hoje no mundo". Inúmeras canções de Elvis eram blues autênticos tais como: "Money Honey" (Jessie Stone – Clyde Mac Phatter - Drifters 1950), "Hound Dog" (1º lugar nas paradas com a bela cantora e compositora de blues Mama Thornton), "That's all right mama" (Artur Big Boy Crudup – 1946), "See see rider" (Ma Rayney – 1924), "Good Rock'n Tonight" (Wynonie Hanis) "Merry Christmas baby" (Charles Brown), "Stranger in my own home town" (Percy Mayfield), Hi-Heel Sneaker" (Tommy Tucker), "Reconsider baby" (Lowell Fulson) entre tantas.

Até na maneira de cantar, dançar e se expressar nos palcos Elvis sofreu influência do blues. Certa vez ele foi assistir a um show de Charlie Burse - da Menphis Jug Band - no início da década de 50 no Handy Park e na Beale Street e foi totalmente inspirado pela maneira frenética de cantar e rebolar de Burse. Até mesmo a primeira gravadora de Elvis (a Sun Records) era especializada em blues antes do surgimento dos rockers brancos, gravando nomes como Rufus Thomas, Doctor Isaiah Ross, Joe Hill Lowis, Willie Nix, Junior Parker, etc. Aliás, o disco gravado na Sun Records por Jackie Brenston em 1951 onde consta o rhythm & blues "Rocket 88" é considerado o "primeiro disco de rock'n'roll".

Elvis sofreu muita discriminação e retaliações por cantar blues, pois ele sendo branco conseguia se apresentar onde os negros não entravam nem "por decreto" e levar a sua mensagem. Certa vez, Elvis foi se apresentar no "Grand Old Opry" (o santuário da Country Music) e cantou "That's all right mama"... prá que?!? O produtor do programa, Jim Deany disse para Elvis: "Não queremos música de preto aqui!!! Volte a ser motorista de caminhão!". Elvis saiu de lá tão deprimido e chateado que acabou esquecendo a sua mala com todas as sua roupas (as únicas que tinha) num posto de gasolina. O curioso é que, anos mais tarde, o "cara de pau" do Jim Deany declarou sobre Elvis: "- Eu sempre soube que este rapaz faria sucesso".

Entre os maiores ícones do blues que Elvis admirava estavam Artur Big Boy Crudup, Jimmy Reed, Mississipi Slim (Elvis estudava com o irmão mais novo de Mississipi Slim, antes de se mudar para a cidade vizinha Tupelo), entre outros. De Arthur Crudup Elvis regravou "My baby left me", "That's all right (mama)", "So glad you're mine" e de Jimmy Reed regravou "Ain't that lovin'you baby", "Baby what you want me to do", "Big boss man" entre outros.

Em 1959, quando Arthur Crudup estava desiludido, perdido e achando que sua carreira havia acabado, Elvis lhe patrocinou um disco que foi um grande sucesso, lançando o "Big Boy" nas paradas (inclusive as européias) tornando-o conhecido e admirado por Rolling Stones, Beatles, entre outros.

Elvis Presley não foi um mercenário que usou o blues e seus compositores para enriquecer e ficar famoso. Foi, sim, um incentivador e amante deste gênero musical que revolucionou o mundo e através dele (Elvis), muitos tiveram acesso a este universo musical, inclusive este que vos escreve. Mesmo na década de 70, onde Elvis se dedicou mais as baladas, ele não abandonou totalmente o blues, pois quem nasce com a alma bluseira nunca deixará de ser um bluesmen e como disse Howlin' Wolf: "Se ele parou, parou. Não é caso para rir. Ele tomou seu impulso do blues!"

Recomendo o Cd "Reconsider Baby - Elvis Presley sings the blues" (BMG) lançado no Brasil em 1985.

Dony Augusto

www.elvisblues.blogspot.com

Elvis, o branco de alma negra

"Ele (Elvis) ensinou a América branca a se ajoelhar" (James Brown)

As décadas de 50, 60 e meados de 70 na América e no resto do mundo, foram marcadas por intolerância e conflitos raciais que dividiram a América entre uma maioria privilegiada (brancos ricos) e uma minoria massacrada, humilhada e acuada em guetos sujos e sombrios (os negros miseráveis). A música e a religião eram os únicos meios que estas pessoas tinham de expressar os seu sentimentos e faziam isto melhor do que ninguém!

O que conhecemos hoje como Rock'n'Roll, já existia muitos anos antes dos primeiros rockers brancos surgirem nas paradas de sucesso. O Blues e o Rhythm & Blues já eram manias entre a juventude negra desde o final da década de 30 e começo de 40, porém só eram tocadas em rádios especializadas (haviam muito poucas) em "race music" e poucos brancos tinham acesso a estas gravações. A Sun Records (a primeira gravadora de Elvis) era uma das poucas e melhores gravadoras deste ritmo que mais tarde recebeu o nome de Rock'n'Roll (que nada mais era do que Blues e/ou Rhythm & Blues cantados por brancos).

Os negros eram obrigados a morar em bairros separados, a estudar em escolas reservadas só para eles (sempre inferiores as dos brancos) e uma série de outras humilhações e privações que pouco se diferenciavam da época em que eram escravos. Estas dificuldades também eram sentidas por imigrantes e por uma parte da população branca que também viviam na pobreza e entre esses uma família de East Tupelo, os Pressley (sim, com dois "s").

Elvis nasceu e cresceu entre a miséria e a pobreza. Nasceu numa "shotguns shacks", uma casa tão pequena que se alguém desse um tiro na porta de entrada o projétil atravessaria toda a casa e sairia pela porta dos fundos sem acertar ninguém. Normalmente estas casas tem três (03) cômodos, porém a dos Pressley's tinham apenas dois (02). A pobreza acabava derrubando as barreiras segregacionais, pois a fome e a humilhação eram sentidas na pele por ambas as raças e Elvis nunca se esqueceu disso.

Durante toda a sua vida, Presley nunca negou a sua origem. Elvis era odiado na década de 50 por levar para dentro das casas e do "mundo dos brancos" aquela música "do diabo" (isto é, "de preto") e suas influências e mensagens. A critica censurava-o dizendo que "soava negro demais". Em sua primeira entrevista numa emissora de rádio, após a execução "That's All Right, Mama" (um blues composto e gravado em 1946 por Artur Big Boy Crudup) sua primeira gravação comercial, o astuto locutor teve o cuidado de perguntar onde Elvis estudou, numa manobra para dizer sutilmente que Elvis era branco, já que a "Humes High School" (escola onde Elvis se formou) não admitia alunos negros.

Elvis era o branco com alma de negro e assim podia cantar a música daquele povo oprimido em lugares que um negro jamais imaginaria pisar um dia! Este foi um marco em toda a carreira de Elvis. Quem imaginaria em pleno ano de 1968 um bailarino negro se apresentando numa das principais emissoras americana e em horário nobre juntamente com outras moças negras entoando e dançando gospel music (lembre-se, 1968 foi o ano em que Martin Luther King foi assassinado exatamente por defender, entre outros, este direito de igualdade)?!? Pois bem, isto aconteceu no "The Comeback Special'68" pela NBC e teve 98% de audiência! Este show marcou a volta de Presley aos palcos e toda a platéia foi selecionada "a dedo", e foram escolhidas belas garotas para ficarem nas primeiras filas, bem próximo ao palco e entre elas haviam moças negras. E as "Sweet Inspirations", grupo vocal formado por negras que acompanharam Elvis de 1968 até a sua morte em 1977?!? Elas se apresentavam e se hospedavam em hotéis luxuosos onde negros, no máximo, eram faxineiros e nunca seriam aceitos na platéia ou, menos ainda, como hospedes! (vide o Show "Aloha From Hawaii" de 1973, transmitido ao vivo de Honolulu para vários países do mundo, totalizando mais de Um Milhão de pessoas).

Você pôde achar que estou exagerando ou "viajando", mas prefiro ficar com as palavras de James Brown, o "king" do Soul: "Ele (Elvis) ensinou a América branca a se ajoelhar" ou nas palavras do próprio Elvis: "Minhas canções exprimem doses de inconformismo e isso eu transmito por intermédio do meu corpo. Na verdade é a minha natureza se exprimindo totalmente. Quem tanto se preocupa com o balançar de minhas pernas, deveria parar, olhar e fazer alguma coisa pelos pobres que quando balançam os seu corpos é, muitas vezes para se aquecer e conseguir enganar o frio..." Pense nisso!!!

Dony Augusto

www.elvisblues.blogspot.com

 

Uma tarde quente...

No sábado, 19 de julho, viajei para o Nassau Coliseum em Long Island para ver Elvis Presley depois de muito tempo. Muita coisa tinha acontecido desde que eu o vi se apresentar em Dayton, em outubro de 73 e eu estava muito preocupado. Haviam vários histórias sobre o quanto ele havia engordado desde o último inverno, problema este causado por algum problema intestinal misterioso. Ele conseguiu perder algum peso, mas ainda estava gordo. Também havia outras histórias sobre problemas em seus olhos. Elvis supostamente estava com glaucoma. Embora eu já o tivesse visto se apresentar por duas vezes, eu não sabia o que me esperava em Long Island.

Estava indo para assistir ao show da tarde e junto comigo foi minha mãe e três amigos. Nenhum deles haviam visto Elvis se apresentar ao vivo. Pouco depois das 14:30 horas as luzes diminuíram e milhares de pessoas estavam em suas poltronas vendo e ouvindo os músicos de Elvis se apresentarem. A audiência desfrutou cada momento, mas você podia sentir a excitação e tensão começando a tomar conta do ambiente quando foi chegando a hora de Elvis se apresentar.

Durante o curto intervalo antes de Elvis entrar no palco, minha mãe comentou: "Eu não posso acreditar que vou vê-lo". As luzes se apagaram e a multidão rugiu em aprovação. A orquestra de Joe Guercio começou a tocar o tema de 2001, todo mundo estava gritando e batendo palmas quando a canção terminou, mas por alguns segundos Elvis não apareceu. Quando ele finalmente surgiu, o coliseu literalmente estourou. A multidão começou a gritar e todos o aplaudiram de pé. Eu nunca vi nada parecido em toda minha vida.

Assim que vi Elvis, deixei escapar um grito...ele nunca pareceu verdadeiramente tão magnífico. Ele não estava tão gordo, não estava tão diferente de quando o vi em Dayton. Seu rosto parecia excepcionalmente jovem. Centenas de flashes pipocavam por todos os lados que, combinando com o frenesi da multidão, fez a cena muito selvagem. Após duas músicas, garotas começaram a lançar objetos no palco, incluindo almofadas, bichos de pelúcia, flores e até canetas.

Ele aceitou todos os presentes com um sincero "obrigado" e então entregou-os aos cuidados de sua namorada que estava ao lado do palco. Eu não tenho certeza se era sua namorada, mas ela estava na esquerda do palco em uma poltrona especial; Nós só podíamos vê-la por trás, era loira e parecia muito bonita. Elvis olhou para ela várias vezes durante o espetáculo, e uma vez disse algo muito rapidamente para ela.

Em determinado momento, uma senhora lançou um bonito cinto vermelho. Ele lhe perguntou se foi ela quem havia feito o cinto, então ajoelhou-se na beira do palco e a beijou enquanto a multidão gritava. Elvis também beijou a testa de um bebê que foi erguido por alguém, mas o maior momento foi quando ele apresentou um garoto de aproximadamente seis anos, vestido com um macacão branco. Ele cantou Teddy Bear, abraçado ao garoto e no final da canção deu um terno beijo em seu rosto. Todo mundo achou aquele gesto muito bonito.

Se há uma coisa em Elvis que me impressionava acima de tudo e de todos, era sua humildade. Ele disse "Obrigado" depois de cada canção. Quando alguém lhe jogava um presente, ele queria ter certeza de que aquela mesma pessoa receberia um de seus lenços. Outra qualidade de Elvis era o respeito com sua platéia. Ele se virou e cantou para todos os lados do Coliseum, não só para quem estava na frente do palco.

Minha mãe chorou quando ele entrou no palco, e quando ela o olhou através do binóculo ela disse: "Oh meu Deus... eu não posso acreditar o quanto ele é bonito!" Ao aproximar o fim do espetáculo, as meninas jogaram sutiãs, uma bermuda feita para Elvis, uma saia e muitos outros objetos. Ele parecia realmente gostar destes presentes e agradeceu a todos. Então ele disse: "Vocês são uma platéia maravilhosa. Por favor, tomem cuidado ao voltarem para suas casas e Deus os abençoe", então ele começou seu tradicional número final, com centenas de mulheres correndo para frente do palco na esperança de ganhar um lenço.

Como já mencionei, sua humildade e educação eram excepcionais. Ele não precisava ter beijado aquele bebê ou aquela senhora e nem aquele garoto no palco. Ele não tinha que falar para as pessoas tomarem cuidado ao voltarem para suas casas e nem pedir para que Deus as abençoasse. Mas ele fez isso sem nenhuma falsidade. Ele fazia essas coisas com muita sinceridade porque amava seus fãs. Ele sabia que sem eles, ele não seria nada.

Quando ele terminou a canção, ele começou a apertar as mãos das pessoas que estavam na frente do palco. Então caminhou de um lado ao outro do palco, de maneira que todos pudessem vê-lo pela última vez. Eu estava emocionado, estava difícil deixar meu assento. Quando saímos do Coliseum, uma das pessoas que estava comigo perguntou: "Quando nós vamos vê-lo novamente?" Aquela pergunta não me deixou surpreso, porque ver Elvis uma única vez não era suficiente.

Eu, pessoalmente, estava muito satisfeito com sua apresentação. Ele esteve muito bem e honestamente, posso afirmar que já vi muitos grupos de rock se apresentarem no país, e de ter participado de vários eventos esportivos e nunca testemunhei esse tipo de excitação de quando Elvis deixou o palco. A intensidade da resposta é difícil acreditar. As recordações deste dia vão ficar sempre em minha vida...

Daniel Spadoni

www.elvisblues.blogspot.com

 

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